quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A abordagem oriental mais a fundo

De mais a mais, as disciplinas orientais como o Vedanta ou o Zen, não são teorias, filosofias, psicologias ou religiões - são, primeiro que tudo, um conjunto de experiências no sentido rigorosamente científico do termo. Compreendem uma série de regras ou injunções que, seguidas à risca e de maneira apropriada, resultarão no descobrimento do Nível da Mente. Recusar-nos a examinar os resultados de experimentos científicos dessa natureza porque não gostamos dos dados assim obtidos é, em si mesmo, um gesto profundamente não-científico. Segundo as palavras de Ananda Coomaraswamy:


Não seria científico dizer que tais consecuções são impossíveis, a menos que se tenham feito experiências de acordo com as disciplinas prescritas e perfeitamente inteligíveis ... Que isto é assim [a saber, que a Mente existe ou que a percepção mística é possível] não pode ser demonstrado na sala de aulas, onde lidamos apenas com tangíveis quantitativos. Ao mesmo tempo, não seria científico negar uma pressuposição cuja prova experimental é possível. No caso presente existe um Caminho [isto é, um experimento] prescrito para os que consentirem em segui-lo...

Exatamente qual é esse Caminho veremos daqui a pouco. O ponto que aqui merece ser lembrado é que, quando falamos da Mente, ou do Absoluto, ou da percepção mística, não estamos falando de um ponto de vista puramente especulativo. Estamos, antes, proclamando dados obtidos experimentalmente, e o cientista que se põe a rir diante de tais resultados, sem ter tido antes o cuidado de realizar o experimento, não passa de um diletante, um cientista no sentido mais estreito e empobrecido do termo.

Está claro que isso não invalida, de maneira alguma, as contribuições feitas pelos investigadores confinados num determinado nível, e que talvez nunca tenham ouvido falar no Nível da Mente, quanto mais tentado atingi-lo, pois as suas descobertas sobre o seu próprio nível são de valor inestimável. Isso sugere, todavia, que um pesquisador que, só tendo consciência de um nível, nega a realidade dos outros, é muito parecido com a cauda que nega a existência do cachorro.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Perspectiva Oriental e Ocidental

É por certo evidente que os enfoques orientais e ocidentais da consciência podem ser usados em separado, pois é precisamente o que está acontecendo hoje; mas agora já deve estar claro que eles também podem ser usados de maneira complementar. Muitos advogados exclusivos dos enfoques orientais propendem a zombar de todas as tentativas de criar egos saudáveis, sustentando que o ego, por si mesmo, é a própria origem de todo o sofrimento do mundo e que, dessa maneira, um ego "saudável" será, na melhor das hipóteses, uma contradição e, na pior, uma cruel brincadeira. Do seu nível de consciência, eles estão certos, e - nesse contexto - concordamos totalmente com os seus pronunciamentos. Entretanto, não nos precipitemos - até o hindu encara a vida como um ciclo de involução e evolução do Eu Absoluto, e admite que muitos de nós, com toda a probabilidade, viveremos esta vida como jivatman, como um ego isolado (embora ilusório) que se defronta com um universo estranho. É precisamente nesses casos que as psicoterapias ocidentais podem oferecer, pelo menos, uma libertação parcial do sofrimento inerente ao fato de se ser um jivatman, e não há razão por que elas não devam ser empregadas nessa situação. Imagine-se, por exemplo, um homem de negócios de meia-idade, razoavelmente feliz da vida, pai de dois filhos, bem-sucedido na profissão, que chegasse ao consultório de um terapeuta para queixar-se de sintomas relativamente sem importância de ansiedade e pressão. Se todos os terapeutas, seguindo a direção de mestres orientais, começassem a responder a esse tipo de problema com sugestões como esta: "Meu caro, você está sofrendo de ansiedade metafísica básica porque não compreende que se acha em comunhão fundamental com Deus", os pacientes, em toda a parte, sairiam correndo do consultório dos psicólogos na procura ansiosa de "bons médicos". A imensa maioria das pessoas, sobretudo na sociedade ocidental, não está pronta, nem disposta, a realizar experiências místicas, e tampouco é capaz de fazê-lo, não devendo ser empurrada para uma aventura desse tipo. Qualquer coisa como um simples aconselhamento que visasse a integrar projeções sobre o Nível do Ego bastaria em muitos casos. E, por conseguinte, os enfoques ocidentais da psicologia do ego são perfeitamente legítimos nesses níveis.

Se o jivatman, contudo, buscar a libertação (isto é, buscar um entendimento do Nível da Mente), as abordagens ocidentais poderão ser usadas como preparação preliminar ou como auxílio concomitante, pois quaisquer métodos que ajudem a promover um estado de relaxamento e tensão reduzida são conducentes à experiência mística. Chegando a uma conclusão bastante geral, portanto, podemos declarar que, para os seguidores da abordagem oriental do Nível da Mente, os meios ocidentais de normalização do Nível do Ego e do Nível Existencial podem revelar-se proveitosíssimos, já que a redução das tensões inerentes ao fato de sermos um ego parece facilitar a transcendência.

No último meio século saíram à luz numerosos livros e artigos que tratam dos vários méritos dos enfoques orientais e ocidentais da consciência mas, com poucas exceções, os autores dessas obras são partidários de uma ou de outra abordagem, e - a despeito das enormes contribuições de alguns deles - acabam, invariavelmente, quer de maneira sutil, quer de maneira espalhafatosa, tachando o outro enfoque de inferior, inexato ou simplesmente grotesco. Demos a entender que o problema de decidir qual o "melhor" enfoque é um falso problema, uma vez que cada uma dessas abordagens trabalha com um nível diferente de consciência. Outra maneira de demonstrá-lo é acentuar que os enfoques orientais e ocidentais - na prática, se não na teoria - nem sequer aspiram à mesma finalidade e, em tais circunstâncias, insistir em fazê-los competir um com o outro equiale a insistir em organizar uma corrida em que a cada participante se dá uma linha de chegada completamente diversa.

O propósito confessado da maioria dos enfoques ocidentais é variamente exposto como o fortalecimento do ego, a integração do eu, a correção da auto-imagem, a construção da confiança em si próprio, o estabelecimento de metas realistas, etc. Eles não prometem a completa libertação de todos os sofrimentos da vida, nem o total aniquilamento de sintomas perturbadores. Em vez disso oferecem, e até certo ponto proporcionam, uma atenuação das "neuroses normais" que são parte essencial do fato de sermos um ego.

É verdade que, até certo ponto, os propósitos das abordagens orientais e ocidentais coicidem entre si, visto que as faixas de qualquer espectro sempre imbricam um pouco nas outras faixas; mas a meta central da maioria dos enfoques orientais não consiste em fortalecer o ego senão em transcendê-lo completa e totalmente, a fim de alcançar o moksha (libertação), o te (virtude do Absoluto), e o satori (iluminação). Tais enfoques afirmam explirar um nível de consciência que oferece total liberdade e completa liberação da causa principal de todo o sofrimento, que imobiliza nossas perguntas mais desconcertantes a respeito da natureza da Realidade, e que põe fim às nossas buscas desassossegadas e ansiosas de uma morada de paz. As metas dos enfoques orientais e ocidentais, por conseguinte, são surpreendentemente díspares, mas isso não deveria surpreender-nos, pois as metas diferem porque os níveis diferem.

Tendo dito tudo isso sobre a natureza das metas dos enfoques orientais, muitos ocidentais se mostram melindorsos ou condescentes, por haverem prejulgado todas as disciplinas orientais friolentas de mentes fracamente sentimentais, situadas em algum ponto entre a loucura mais ou menos consciente e as formas avançadas da esquizofrenia. Esses ocidentais se encontram no Nível do Ego e encaram quaisquer desvios dele com a máxima desconfiança, em lugar de encará-los com franco interesse, embora muitos sejam até considerados autoridades no tocante à natureza de todo o reino da consciência. Acontece, porém, que as únicas autoridades dignas de confiança, as únicas dignas de fé, as únicas com as quais podemos contar cientificamente são os exploradores conscienciosos que experimentaram os vários níves da consciência, incluindo o de sermos um ego e o de trascendermos o ego. Se lhes solicitarmos os pareceres sobre a natureza da Mente, da percepção Mística, da transcendência do ego, veremos que suas opniões são impressionantemente universais e unânimes; transcender o ego não é uma aberração mental nem uma alucinação psicótica, senão um estado ou nível de consciência infinitamente mais rico, mais natural e mais satisfatório do que o ego poderia imaginar em seus vôos mais desatinados de fantasia.

Franqueiam-se-nos, desse modo, duas opções no julgar a sanidade, ou a realidade, ou a desejabilidade do Nível da Mente, da percepção mística - acreditar nos que o experimentaram pessoalmente, ou tentar experimentá-lo nós mesmos; mas, se não pudermos fazer uma coisa nem outra, seria prudente suspendermos o nosso julgamento.

Em resumo, os três níveis básicos

Estabeleça-se de uma vez por todas que esta síntese não colima, de maneira alguma, resolver disputas ora em curso nos mesmos níveis, como, por exemplo, se eu, tenho um medo fóbico de falar em público, devo ir a um psicanalista ou a um behaviorista? Só com o tempo e novas experimentações seremos capazes de delinear os vários méritos de cada abordagem. A presente síntese, todavia, tenta responder a perguntas como esta: "De um modo geral, sinto-me infeliz em relação à vida - devo seguir a psicoterapia ou o Budistmo Mahayana?" com a resposta: "Você tem plena liberdade de seguir a ambos, pois tais enfoques se referem a níveis diferentes e, portanto, não estão fundamentalmente em conflito um com o outro".

Ora, o Nível do Ego é a faixa da consciência que compreende o nosso papel, a imagem que temos de nós mesmos, com os seus aspectos conscientes e inconscientes, bem como a natureza analítica e discriminativa do intelecto, da nossa "mente". O segundo nível principal, o Nível Existencial, envolve o nosso organismo total, tanto o soma quanto a psique e, assim, compreende nosso sentido básico de existência, de ser, a par com nossas premissas culturais, que modelam de muitas maneiras a sensação básica de existência. Entre outras coisas, o Nível Existencial forma o referente sensorial da nossa auto-imagem: é o que sentimos quando evocamos mentalmente o símbolo da nossa auto-imagem. Forma, em suma, a fonte persistente e irredutível de uma consciência separada do Eu. O terceiro nível básico, aqui denominado Mente, costuma ser cognomidado consciência mística, e inclui a sensação de que nos identificamos fundamentalmente com o universo. Assim sendo, onde o Nível do Ego inclui a mente e o Nível Existencial inclui a mente e o corpo, o Nível da Mente inclui a mente, o corpo e o resto do universo. Essa sensação de identificação com o universo é muito mais comum do que poderíamos supor inicialmente, pois - num determinado sentido, que tentaremos explicar - é o próprio fundamento de todas as sensações. Em poucas palavras, o Nível do Ego é o que sentimos quando nos sentimos pai, mãe, advogado, homem de negócios, brasileiro, ou qualquer outro papel ou imagem particular. O Nível Existencial é o que sentimos "debaixo" da nossa auto-imagem; ou seja, é a sensação de existência organísmica total, a convicção íntima de que existimos como o sujeito separado de todas as nossas experiências. O Nível da Mente - como buscaremos demonstrar - é o que estamos sentindo nesse momento antes de sentirmos qualquer outra coisa - uma sensação de identificação com o cosmo.

O Nível do Ego e o Nível Existencial constinuem, juntos, nossa sensação geral de sermos um indivíduo existente por si mesmo e separado, e foi a esses níveis que a maioria dos enfoques ocidentais se dirigiu. Por outro lado, as disciplinas orientais, via de regra, se ocupam mais do Nível da mente e, dessarte, tendem a passar ao largo dos níveis da egocentricidade. Em resumo, as psicoterapias ocidentais visam "remendar" o eu individual, ao passo que as abordagens orientais se propõem transcendê-lo.

Desse modo, enquanto estamos no Nível do Ego ou no Nível Existencial, aproveitemos os métodos existentes - em grande parte "ocidentais" - de criar egos sadios, integrar projeções, entrar em luta com impulsos e desejos inconscientes, realinhar estruturalmente nossas posturas corporais, aceitar a responsabilidade por estarmos no mundo, lidar com neuroses, viver em toda a plenitude o nosso potencial de indivíduos. Mas se quisermos tentar ultrapassar os confins do eu individual, descobrir um nível ainda mais rico e mais pleno de consciência, procuremos aprender com aqueles investigadores - em sua maioria "orientais" - do Nível da Mente, da percepção mística, da consciência cósmica.

A identificação dos níveis básicos

Dentre um número infinito de níveis possíveis, que se nos tornaram acessíveis através das revelações da psicanálise, do Budismo Yogacara, do Hinduísmo Vedântico, da terapia da Gestalt, do Vijrayana, da Psicossíntese, e quejandos, três faixas principais (e quatro níveis menores, Transpessoal, Biossocial, Filosófico e o nível da Sombra, que serão descritos mais tarde) foram escolhidas com base na sua simplicidade e facilidade de identificação. A esses três níveis chamamos:

  1. O nível do Ego.
  2. O nível Existencial.
  3. O nível da Mente.

A natureza dessa síntese começará a tornar-se mais clara se compreendermos que inúmeros investigadores da consciência estudaram alguns níveis desde pontos de vista ligeiramente diversos, e uma de nossas tarefas consiste em destilar e coordenar as suas conclusões. O Dr. Hubert Benoit, por exemplo, refere-se aos três níveis principais chamando-lhes, respectivamente, o nível da consciência objetal, o nível da consciência subjetal e o nível do Princípio Absoluto. Wei Wu Wei, por sua vez, chama-lhes os níveis do objeto, do pseudo-objeto e do Sujeito Absoluto. O Budismo Yogacara tem o mano-vijnana, os manas e o alaya. Os mesmos níveis também foram enfocados por outros renomados exploradores, como William James, D. T. Suzuki, Stanislav Grof, Roland Fischer, Carl Jung, Gurdjieff, Shankara, Assagioli, John Lilly, Edward Carpenter, Blake - para nomear apenas um punhado deles. Tem também um interesse especial para nós o fato de vários psicólogos terem restringido (se bem que sem o querer) suas investigações num nível principal, e suas conclusões são de imensa importância para esclarecer e caracterizar cada nível individual. Mais notáveis, entre outras, são as escolas de psicanálise, de psicologia existencial, de terapia da Gestalt, do behaviorismo, da terapia racional, da psicologia social e da análise transacional.

Em outras palavras, começará a emergir do nosso estudo do Espectro da Consciência não só uma síntese de enfoques orientais e ocidentais da psicologia e da psicoterapia, mas também uma síntese e integração dos vários enfoques ocidentais principais da psicologia e da psicoterapia. Ora, neste ponto, sem chegar a nenhum dos pormenores e sem "revelar nenhum segredo" digamos apenas que as várias diferentes escolas de psicologia ocidental, como a freudiana, a existencial e a junguiana, estão se dirigindo também, no todo, a vários níveis diferentes do Espectro da Consciência, de modo que podem ser igualmente integradas numa abrangente "psicologia do espectro". Afirmo, com efeito, que a principal razão da existência, no Ocidente, de quatro ou cinco escolas principais, porém diferentes, de psicologia e psicoterapia é que cada uma delas focalizou sua atenção e numa faixa ou nível principal do Espectro. Não são, digamos assim, quatro escolas diferentes que formam quatro teorias diferentes a respeito de um nível de consciência, mas quatro escolas diferentes onde cada uma das quais se dirige predominantemente a um nível diferente do Espectro (por exemplo, os níveis da Sombra, do Ego, o Biossocial e o Existencial). Essas escolas distintas, por conseguinte, mantém uma relação complementar entre si, e não, como geralmente se supõe, uma relação antagônica ou contraditória. Fio-me de que isso se torne amplamente aparente à proporção que este estudo prosseguir.

Manifestações particulares do Espectro

Prosseguindo a analogia, abundam as discussões desse gênero porque cada explorador fala de uma faixa diferente do espectro da consciência e, se isso fosse compreendido, os motivos de tais discussões se evaporariam - pois uma discussão só pode ser legitimamente sustentada se os participantes estiverem falando a respeito do mesmo nível. A argumentação seria - na maior parte dos casos - substituída por algo afim do princípio de complementaridade de Bohr. A informação procedente dos e sobre os diferentes níveis vibratórios das faixas da consciência - se bem fossem, superficialmente, tão diferentes quanto os raios X e as ondas de rádio - seria integrada e sintetizada num espectro, num arco-íris. O fato de ser cada abordagem, cada nível, cada faixa apenas uma entre várias outras faixas não deveria, de maneira alguma, comprometer a integridade nem o valor dos níveis individuais nem da pesquisa levada a efeito nesses níveis. Pelo contrário, sendo uma manifestação particular do espectro, cada faixa ou nível só é o que é em razão das outras faixas. A cor azul não é menos bela porque existe ao lado das outras cores do arco-íris, e a própria "azulidade" depende da existência das outras cores, pois se a única cor existente fosse o azul, nunca seríamos capazes de vê-lo. Nesse tipo de síntese, nenhum enfoque, seja oriental, seja ocidental, tem alguma coisa a perder - antes, pelo contrário, todos ganham um enfoque universal, holístico.

Em todo o correr desse blog, sempre que nos referirmos à consciência como a um espectro, ou como composta de numerosas faixas ou níveis vibratórios, o significado permanecerá estritamente metafórico. Propriamente falando, a consciência não é um espectro - mas convém, para finalidades de comunicação e investigação, tratá-la como tal. Em outras palavras, estamos criando um modelo, no sentido científico do termo, muito parecido com o modelo de Michaelis-Menton de cinética enzimática, o modelo óctuplo do núcleo atômico, ou o modelo da excitação visual baseada na fotoisomerização da rodopsina. A fim de completar essa discussão introdutória do espectro da consciência, resta-nos fazer apenas breve identificação dos níveis básicos da consciência que serão tratados nesta síntese.

O Espectro da Consciência

Compare-se agora tudo isso com a descrição feita por Lama Govinda de uma concepção budista tibetana da consciência. Referindo-se à consciência como composta de diversas gradações, faixas ou níveis, afirma Govinda que tais níveis "não são camadas separadas ... mas têm antes a natureza de formas de energia reciprocamente penetrantes, desde a mais fina consciência luminosa 'que se irradia para todos os pontos' e 'que tudo penetra', até a forma mais densa de 'consciência materializada', que se apresenta diante de nós como o nosso corpo físico visível". A consciência, em outras palavras, é aqui descrita de maneira muito semelhante ao espectro eletromagnético, e vários investigarores ocidentais - colhendo a sua deixa nessas descrições - chegaram, de fato, a sugerir que talvez conviesse encarar a consciência como um espectro.

Se, por um momento, considerarmos a consciência como um espectro, poderemos esperar que os diversos investigadores da consciência, sobretudo os que comumente se denominam "orientais" e "ocidentais", porque empregam instrumentos diferentes de linguagem, metodologia e lógica, "fizessem ligação" com diferentes faixas ou níveis vibratórios do espectro da consciência, exatamente como os primeiros cientistas da radiação faziam ligação com diferentes faixas do espectro magnético. Podemos esperar, outrossim, que os investigadores "orientais" e "ocidentais" da consciência não desconfiassem de que estavam todos fazendo ligação com várias faixas ou níveis do mesmíssimo espectro e, por conseguinte, a comunicação entre os investigadores fosse particularmente difícil e ocasionalmente hostil. Cada investigador estaria certo ao falar sobre o seu próprio nível e, assim, todos os demais investigadores - que tivessem feito ligação com outros níveis - pareceriam estar completamente errados. Não se esclareceria a controvérsia apenas obrigando os investigadores a concordarem entre si, senão compreendendo que todos falavam sobre um espectro isto de níveis distintos. Seria quase como se Madame Curie discutisse com William Herschel acerca da natureza da radiação, se nenhum deles compreendesse que a radiação é um espectro. Trabalhando apenas com raios gama, Curie proclamaria que a radiação afeta as chapas fotográficas, é poderosíssima e poe revelar-se mortal aos organismos, ao passo que William Herschel, trabalhando apenas com os raios infravermelhos, afirmaria que nada disso era verdade! E ambos, naturalmente, estariam certos, porque cada qual estaria trabalhando com uma faixa diferente do espectro e, quando o compreendesse, cessaria a discussão, e o fenômeno da radiação seria então entendido através de uma síntese de todas as informações obtidas em cada nível, precisamente a maneira com que os físicos de hoje encaram o assunto.

A nossa expectativa de que, sendo a consciência um espectro, a comunicação entre os investigadores orientais e ocidentais seria difícil porque cada qual estaria trabalhando num nível vibratório diferente, é exatamente o que acontece hoje. Em que pese a numerosas exceções importantes, a comunidade científica ocidental concorda, de um modo geral, em que a mente "oriental" é regressiva, primitiva ou, na melhor das hipóteses, simplesmente débil, ao passo que o filósofo oriental dirá provavelmente que o materialismo científico ocidental representa a forma mais grosseira de ilusão, ignorância e despojamento espiritual. Franz Alexander, por exemplo, representando uma variedade da investigação ocidental chamada psicanálise, assevera: "As manifestas similaridades entre as regressões esquizofrênicas e as práticas do Yoga e do Zen indicam que a tendência geral das culturas orientais é o recolhimento ao interior do eu, a fim de escapar a uma realidade física e social despoticamente difícil". Representando o enfoque oriental, como se pretendesse responder a isso, D. T. Suzuki declara: "O conhecimento científico do Eu não é um verdadeiro conhecimento ... O conhecimento do Eu só é possível ... quando os estudos científicos chegarem ao fim [e os cientistas] depõem suas engenhocas de experimentação e confessam não poder continuar as pesquisas".

Prólogo

Numa observação freqüentemente citada, William James afirmou:

A nossa consciência normal em estado de vigília é apenas um tipo especial de consciência, ao passo que em toda a sua volta, separadas dela pela mais fina das telas, jazem formas potenciais de consciência inteiramente diversas. Podemos passar a vida inteira sem suspeitar-lhes sequer da existência; aplique-se-lhes, porém, o estímulo necessário e, ao primeiro toque, por mais leve que seja, ei-las ali em toda a sua completitude...
Não pode ser definitiva nenhuma explicação do universo em sua totalidade que não dê tento dessas outras formas de consciência... De qualquer maneira, elas atalham o nosso prematuro acerto de contas com a realidade.


Este blog é uma tentativa de proporcionar estrutura a uma explicação assim do universo. Ora, acima de tudo o mais, tal estrutura é uma síntese do que denominamos, de um modo geral mais nebuloso, os enfoques "oriental" e "ocidental" da compreensão da consciência; e, em virtude da natureza extraordinariamente vasta e complexa das duas abordagens, essa síntese - pelo menos em alguns aspectos - é deliberadamente simplista. Pode empregar-se com proveito uma analogia da física para explicar o citado enfoque.

Nosso ambiente está saturado de inúmeras espécies de radiação - além da luz visível comum, de várias cores, existem os raios X, os raios gama, o calor infravermelho, a luz ultravioleta, as ondas de rádio e os raios cósmicos. Tirante a da luz visível, a existência dessas ondas de radiação era desconhecida até cerca de 200 anos atrás, quando William Herschel iniciou-lhes a exploração e demonstrou a existência da "radiação térmica" - agora chamada infravermelha - usando, à guisa de instrumentos, nada mais do que termômetros com bulbos enegrecidos colocados em várias faixas de um espectro solar. Pouco depois da descoberta de Herschel, Ritter e Wollaston, utilizando instrumentos fotográficos, detectaram a radiação ultravioleta e, mais ou menos no fim do século XIX, a existência de raios X, raiors gama e ondas de rádio foi experimentalmente provada com o emprego de uma variedade de técnicas e aparelhos.

Superficialmente, todas essas radiações diferem muito uma das outras. Os raios X e os raios gama, por exemplo, possuem comprimentos de onda muito curtos e, por conseqüência, são muito poderosos, capazes de danificar letalmente tecidos biológicos; a luz visível, por outro lado, possui um comprimento de onda muito maior, é menos poderosa e, dessa forma, raramente danifica um tecido vivo. Desse ponto de vista, elas são realmente dessemelhantes. Outro exemplo: os raios cósmicos têm um comprimento de onda inferior a um milionésimo de milionésimo de polegada, ao passo que o comprimento de onda de algumas ondas de rádio é superior a uma milha! À primeira vista, por certo, todos esses fenômenos parecem de todo distintos.

Estranhamente, porém, tais radiações são agora encaradas como formas diferentes de uma onda eletromagnética essencialmente característica, pois todos os raios, na aparência diversos, compartem de um grande conjunto de propriedades comuns. No vácuo, todos viajam à velocidade da luz; todos se compõem de vetores elétricos e magnéticos perpendiculares em relação uns aos outros; são todos quantificados como fótons, e assim por diante. Por serem essas formas dissimiles de radiação eletromagnética - nesse nível "simplista" - fundamentalmente tão semelhantes, costumam hoje ser vistas como se compusessem um único espectro, do mesmo modo que as faixas de cores diferentes do arco-íris formam um espectro visível. Agora sendo, o que outrora se supunha serem eventos inteiramente separados, agora são vistos como variações do mesmo fenômeno básico, e os primeiros cientistas - porque utilizavam instrumentos dispares - estavam simplesmente "fazendo ligação" com várias e diferentes freqüências ou níveis vibratórios do espectro sem dar tino de que todos estudavam o mesmo processo básico.

A radiação eletromagnética, portanto, consiste num espectro de energia de vários comprimentos de onda, freqüências e energias, que vão desde os raios cósmicos "mais finos" e "mais penetrantes" até as ondas de rádio "mais densas" e menos enérgicas.

Primeira parte: Evolução

Assim não podemos escapar ao fato de que o mundo que conhecemos é constituído a fim de ver-se a si mesmo. Para fazê-lo, todavia, ele precisa primeiro dividir-se, pelo menos, em um estado que vê e, pelo menos, em outro estado que é visto.

G. Spencer Brown


Em sua natureza original, a consciência, tranqüila e pura, está acima do dualistmo de sujeito e objeto. Mas aqui aparece o princípio da particularização e, com o levantar-se desse vento de ação, as ondas se agitam sobre a superfície tranqüila da Mente. Agora ela está diferenciada ou evolve em oito níveis.

D. T. Suzuki


Há assim uma incessante multipicação do Um inesgotável e a unificação das indefinidamente Muitos. Tais são os princípios e os fins dos mundos e dos seres individuais: expandidos desde um ponto sem posição nem dimensões e um agora sem data nem duração.

Ananda K. Coomaraswamy