terça-feira, 3 de julho de 2007
Psicanálise
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Projetar e abraçar a sombra: impulsos de 1ª pessoa dinamicamente dissociados
Sob certas circunstâncias, qualidades, sentimentos e impulsos de 1ª pessoa podem se tornar reprimidos, renegados ou dissociados, e quando isso acontece, eles surgem como eventos de 2ª pessoa ou até mesmo de 3ª pessoa em minha própria percepção de 1ª pessoa.
Eis um exemplo – e para este exemplo, lembre-se de que a 1ª pessoa é definida como a pessoa que fala (por exemplo, “eu”); a 2ª pessoa é a pessoa com quem se fala (por exemplo, “tu”); e a 3ª pessoa é a pessoa de quem se fala (por exemplo, “ele”, “ela”, “eles/elas”). Há também o “caso”, por exemplo, caso reto, oblíquo e possessivo, de modo que o caso reto de 1ª pessoa é “eu”, o caso oblíquo de 1ª pessoa é “me” e o caso possessivo de 1ª pessoa é “meu” ou “minha”. Assim, eis o exemplo de como a repressão ou dissociação pode ocorrer:
Se fico com raiva do meu chefe, mas esse sentimento é uma ameaça à minha auto-percepção (“sou uma boa pessoa; pessoas boas não ficam com raiva”), então posso dissociar ou reprimir a raiva - por diversas razões, medo, auto-restrição, julgamentos do superego, traumas anteriores, etc. Porém, o simples fato de negá-la não a elimina, apenas faz com que os sentimentos de raiva pareçam alheios à minha própria percepção: posso sentir raiva, mas essa raiva não é minha. Os sentimentos de raiva são colocados do outro lado da fronteira do self (do outro lado da fronteira do eu), e nesse ponto eles parecem eventos alheios ou estranhos em minha própria percepção, em meu self.
Posso, por exemplo, projetar a raiva. Ela continua a aumentar, mas como não pode ser eu quem está com raiva, deve ser outra pessoa. Subitamente, o mundo parece cheio de gente com raiva..., e, em geral, com raiva de mim! Na verdade, acho que meu chefe quer me demitir e isso me deprime. Por meio da projeção de minha própria raiva, “furioso” se transforma em “triste”, e nunca vou superar essa depressão sem primeiro assumir a raiva. "Pensando bem, Ícaro está sempre com raiva de mim! Que pena, porque eu nunca fico furioso com ele, nem com ninguém" - é como amputar minha perna, apenas alegar que ela é sua. Não é minha, é sua! A raiva não é minha, é sua! (Porém, é uma grande disfunção, não é?).
Sempre que renego e projeto minhas qualidades, elas aparecem “por aí”, onde me assustam, me irritam, me deprimem e me obcecam. Reciprocamente, em nove entre dez casos, as coisas no mundo que mais me perturbam e irritam em relação aos outros são, na verdade, minhas qualidades sombrias (minha sombra), que agora são vistas como “externas”.
É por isso que essas coisas nos incomodam, e apenas aquelas que são reflexos de nossa sombra. Isso não quer dizer que os outros não tenham qualidades de desprezo. Meu vizinho é, sem dúvida, controlador! Mas por que isso me incomoda? Pelo jeito não irrita minha esposa, nem os outros vizinhos. Ah, mas se eles pudessem ver como esse cara é controlador, eles o odiariam também, como eu! Porém, é minha sombra que odeio, é contra ela que protesto. Eu sou mais controlador do que gosto de admitir, e ao não reconhecer essa qualidade que desprezo em mim, eu a nego e a projeto em meu vizinho – ou em qualquer outro que eu venha a encontrar. Sei que alguém é controlador, e porque simplesmente esse alguém não pode ser eu, tem de ser ele, ela, ou eles. Se a pessoa desprezada, de fato, possui o impulso ou a qualidade projetada, então isso servirá como um “gancho” para minha sombra projetada, um receptáculo convidativo para minhas qualidades similares e projetadas. Não estou dizendo que os outros não são assim; estou dizendo que se projetarmos nossa sombra sobre eles, teremos duas coisas para odiar.
É essa dose dupla de ódio que surge sob a forma de sintomas neuróticos, as sombras de um eu renegado. Se as qualidades negativas de outrem meramente me informam, é uma coisa; mas se elas me obcecam, me irritam, me inflam, me perturbam, então é provável que esteja, pura e simplesmente, vivendo um caso grave de projeção da sombra.
Esses elementos sombrios podem ser positivos ou negativos. Além de sermos um pouquinho piores, somos também um pouquinho melhores do que costumamos admitir e, ao projetarmos nossas virtudes, potenciais e capacidades positivas em outros, abraçamos nossa sombra a vida toda. Um rapaz diz “você é linda!”, e a garota retruca “são seus olhos” - por mais inconscientes que estejam, faz todo o sentido. Tanto projetar a sombra quanto abraçá-la são exemplos de doença psíquica, que, infelizmente, a grande maioria das pessoas sofre.
Portanto, eis o que acontece quando dissocio e alieno minha sombra, por exemplo, minha raiva. No momento em que afasto a raiva de mim, empurrando-a para o outro lado da fronteira do meu eu, ela se torna uma ocasião de 2ª pessoa em minha 1ª pessoa. Ou seja, enquanto ativamente afasto a raiva de mim, estou ciente dela, mas ela se transforma em um tipo de “tu” em meu próprio self. (Como disse, “2ª pessoa” significa a pessoa com quem eu falo, por isso a raiva de 2ª pessoa significa raiva com a qual eu ainda falo, mas ela não é mais eu, nem minha, nem para mim, não é mais 1ª pessoa). Posso perceber os sentimentos de raiva surgindo, mas eles surgem em minha percepção como se fossem um vizinho furioso batendo à minha porta. Sinto a raiva, mas, na verdade, digo a ela: “O que você quer?” – não “eu estou com raiva”, mas “alguém está com raiva, não eu”.
Se eu continuar a negá-la, ela poderá ficar completamente dissociada ou reprimida em uma ocasião de 3ª pessoa, que significa que não falo mais com ela: minha raiva finalmente se tornou “ela” ou um perfeito estranho em minha própria percepção, talvez surgindo como o sintoma de depressão, talvez deslocada em outras pessoas, ou projetada em meu chefe. Minha própria raiva-“eu” tornou-se um “ele” renegado, assombrando os corredores do meu íntimo, o fantasma da máquina de meu self retraído.
Em resumo, no decorrer de uma dissociação típica, quando meus sentimentos de raiva surgem, eles são convertidos de minha raiva de 1ª pessoa para outra de 2ª ou até mesmo de 3ª pessoa em minha percepção: aspectos de meu “eu” agora aparecem como um “ele” em meu próprio “eu”, e esses sentimentos e objetos do “ele” me deixam completamente confuso: essa depressão, ELA simplesmente me domina. Essa ansiedade, ELA me deixa maluco. Essas dores de cabeça, não sei de onde ELAS vêm, mas sinto tudo isso quando estou perto de meu chefe. Qualquer coisa, menos “estou furioso”, porque essa raiva não mais me pertence. Sou uma boa pessoa, nunca sentiria raiva – mas essas dores de cabeça estão acabando comigo.
O objetivo desse exemplo é ressaltar uma seqüência fenomenológica de eventos: certos “assuntos do eu” podem surgir na percepção (“eu estou com raiva!”), ser afastados ou negados, e as qualidades, impulsos ou sentimentos alienados colocados do outro lado da fronteira do eu: agora eu os sinto como outro (“sou uma pessoa boa, não estou com raiva, mas sei que alguém está, e como não pode ser eu, tem de ser ele!”). Depois que isso acontece, o sentimento ou a qualidade não deixam de existir; porém, a propriedade dele, sim. Esses sentimentos ou qualidades desapropriados podem, então, surgir como sintomas neuróticos confusos e dolorosos – como elementos “sombrios” em minha própria percepção.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
A abordagem oriental mais a fundo
Não seria científico dizer que tais consecuções são impossíveis, a menos que se tenham feito experiências de acordo com as disciplinas prescritas e perfeitamente inteligíveis ... Que isto é assim [a saber, que a Mente existe ou que a percepção mística é possível] não pode ser demonstrado na sala de aulas, onde lidamos apenas com tangíveis quantitativos. Ao mesmo tempo, não seria científico negar uma pressuposição cuja prova experimental é possível. No caso presente existe um Caminho [isto é, um experimento] prescrito para os que consentirem em segui-lo...
Exatamente qual é esse Caminho veremos daqui a pouco. O ponto que aqui merece ser lembrado é que, quando falamos da Mente, ou do Absoluto, ou da percepção mística, não estamos falando de um ponto de vista puramente especulativo. Estamos, antes, proclamando dados obtidos experimentalmente, e o cientista que se põe a rir diante de tais resultados, sem ter tido antes o cuidado de realizar o experimento, não passa de um diletante, um cientista no sentido mais estreito e empobrecido do termo.
Está claro que isso não invalida, de maneira alguma, as contribuições feitas pelos investigadores confinados num determinado nível, e que talvez nunca tenham ouvido falar no Nível da Mente, quanto mais tentado atingi-lo, pois as suas descobertas sobre o seu próprio nível são de valor inestimável. Isso sugere, todavia, que um pesquisador que, só tendo consciência de um nível, nega a realidade dos outros, é muito parecido com a cauda que nega a existência do cachorro.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Perspectiva Oriental e Ocidental
Se o jivatman, contudo, buscar a libertação (isto é, buscar um entendimento do Nível da Mente), as abordagens ocidentais poderão ser usadas como preparação preliminar ou como auxílio concomitante, pois quaisquer métodos que ajudem a promover um estado de relaxamento e tensão reduzida são conducentes à experiência mística. Chegando a uma conclusão bastante geral, portanto, podemos declarar que, para os seguidores da abordagem oriental do Nível da Mente, os meios ocidentais de normalização do Nível do Ego e do Nível Existencial podem revelar-se proveitosíssimos, já que a redução das tensões inerentes ao fato de sermos um ego parece facilitar a transcendência.
No último meio século saíram à luz numerosos livros e artigos que tratam dos vários méritos dos enfoques orientais e ocidentais da consciência mas, com poucas exceções, os autores dessas obras são partidários de uma ou de outra abordagem, e - a despeito das enormes contribuições de alguns deles - acabam, invariavelmente, quer de maneira sutil, quer de maneira espalhafatosa, tachando o outro enfoque de inferior, inexato ou simplesmente grotesco. Demos a entender que o problema de decidir qual o "melhor" enfoque é um falso problema, uma vez que cada uma dessas abordagens trabalha com um nível diferente de consciência. Outra maneira de demonstrá-lo é acentuar que os enfoques orientais e ocidentais - na prática, se não na teoria - nem sequer aspiram à mesma finalidade e, em tais circunstâncias, insistir em fazê-los competir um com o outro equiale a insistir em organizar uma corrida em que a cada participante se dá uma linha de chegada completamente diversa.
O propósito confessado da maioria dos enfoques ocidentais é variamente exposto como o fortalecimento do ego, a integração do eu, a correção da auto-imagem, a construção da confiança em si próprio, o estabelecimento de metas realistas, etc. Eles não prometem a completa libertação de todos os sofrimentos da vida, nem o total aniquilamento de sintomas perturbadores. Em vez disso oferecem, e até certo ponto proporcionam, uma atenuação das "neuroses normais" que são parte essencial do fato de sermos um ego.
É verdade que, até certo ponto, os propósitos das abordagens orientais e ocidentais coicidem entre si, visto que as faixas de qualquer espectro sempre imbricam um pouco nas outras faixas; mas a meta central da maioria dos enfoques orientais não consiste em fortalecer o ego senão em transcendê-lo completa e totalmente, a fim de alcançar o moksha (libertação), o te (virtude do Absoluto), e o satori (iluminação). Tais enfoques afirmam explirar um nível de consciência que oferece total liberdade e completa liberação da causa principal de todo o sofrimento, que imobiliza nossas perguntas mais desconcertantes a respeito da natureza da Realidade, e que põe fim às nossas buscas desassossegadas e ansiosas de uma morada de paz. As metas dos enfoques orientais e ocidentais, por conseguinte, são surpreendentemente díspares, mas isso não deveria surpreender-nos, pois as metas diferem porque os níveis diferem.
Tendo dito tudo isso sobre a natureza das metas dos enfoques orientais, muitos ocidentais se mostram melindorsos ou condescentes, por haverem prejulgado todas as disciplinas orientais friolentas de mentes fracamente sentimentais, situadas em algum ponto entre a loucura mais ou menos consciente e as formas avançadas da esquizofrenia. Esses ocidentais se encontram no Nível do Ego e encaram quaisquer desvios dele com a máxima desconfiança, em lugar de encará-los com franco interesse, embora muitos sejam até considerados autoridades no tocante à natureza de todo o reino da consciência. Acontece, porém, que as únicas autoridades dignas de confiança, as únicas dignas de fé, as únicas com as quais podemos contar cientificamente são os exploradores conscienciosos que experimentaram os vários níves da consciência, incluindo o de sermos um ego e o de trascendermos o ego. Se lhes solicitarmos os pareceres sobre a natureza da Mente, da percepção Mística, da transcendência do ego, veremos que suas opniões são impressionantemente universais e unânimes; transcender o ego não é uma aberração mental nem uma alucinação psicótica, senão um estado ou nível de consciência infinitamente mais rico, mais natural e mais satisfatório do que o ego poderia imaginar em seus vôos mais desatinados de fantasia.
Franqueiam-se-nos, desse modo, duas opções no julgar a sanidade, ou a realidade, ou a desejabilidade do Nível da Mente, da percepção mística - acreditar nos que o experimentaram pessoalmente, ou tentar experimentá-lo nós mesmos; mas, se não pudermos fazer uma coisa nem outra, seria prudente suspendermos o nosso julgamento.
Em resumo, os três níveis básicos
Ora, o Nível do Ego é a faixa da consciência que compreende o nosso papel, a imagem que temos de nós mesmos, com os seus aspectos conscientes e inconscientes, bem como a natureza analítica e discriminativa do intelecto, da nossa "mente". O segundo nível principal, o Nível Existencial, envolve o nosso organismo total, tanto o soma quanto a psique e, assim, compreende nosso sentido básico de existência, de ser, a par com nossas premissas culturais, que modelam de muitas maneiras a sensação básica de existência. Entre outras coisas, o Nível Existencial forma o referente sensorial da nossa auto-imagem: é o que sentimos quando evocamos mentalmente o símbolo da nossa auto-imagem. Forma, em suma, a fonte persistente e irredutível de uma consciência separada do Eu. O terceiro nível básico, aqui denominado Mente, costuma ser cognomidado consciência mística, e inclui a sensação de que nos identificamos fundamentalmente com o universo. Assim sendo, onde o Nível do Ego inclui a mente e o Nível Existencial inclui a mente e o corpo, o Nível da Mente inclui a mente, o corpo e o resto do universo. Essa sensação de identificação com o universo é muito mais comum do que poderíamos supor inicialmente, pois - num determinado sentido, que tentaremos explicar - é o próprio fundamento de todas as sensações. Em poucas palavras, o Nível do Ego é o que sentimos quando nos sentimos pai, mãe, advogado, homem de negócios, brasileiro, ou qualquer outro papel ou imagem particular. O Nível Existencial é o que sentimos "debaixo" da nossa auto-imagem; ou seja, é a sensação de existência organísmica total, a convicção íntima de que existimos como o sujeito separado de todas as nossas experiências. O Nível da Mente - como buscaremos demonstrar - é o que estamos sentindo nesse momento antes de sentirmos qualquer outra coisa - uma sensação de identificação com o cosmo.
O Nível do Ego e o Nível Existencial constinuem, juntos, nossa sensação geral de sermos um indivíduo existente por si mesmo e separado, e foi a esses níveis que a maioria dos enfoques ocidentais se dirigiu. Por outro lado, as disciplinas orientais, via de regra, se ocupam mais do Nível da mente e, dessarte, tendem a passar ao largo dos níveis da egocentricidade. Em resumo, as psicoterapias ocidentais visam "remendar" o eu individual, ao passo que as abordagens orientais se propõem transcendê-lo.
Desse modo, enquanto estamos no Nível do Ego ou no Nível Existencial, aproveitemos os métodos existentes - em grande parte "ocidentais" - de criar egos sadios, integrar projeções, entrar em luta com impulsos e desejos inconscientes, realinhar estruturalmente nossas posturas corporais, aceitar a responsabilidade por estarmos no mundo, lidar com neuroses, viver em toda a plenitude o nosso potencial de indivíduos. Mas se quisermos tentar ultrapassar os confins do eu individual, descobrir um nível ainda mais rico e mais pleno de consciência, procuremos aprender com aqueles investigadores - em sua maioria "orientais" - do Nível da Mente, da percepção mística, da consciência cósmica.
A identificação dos níveis básicos
- O nível do Ego.
- O nível Existencial.
- O nível da Mente.
A natureza dessa síntese começará a tornar-se mais clara se compreendermos que inúmeros investigadores da consciência estudaram alguns níveis desde pontos de vista ligeiramente diversos, e uma de nossas tarefas consiste em destilar e coordenar as suas conclusões. O Dr. Hubert Benoit, por exemplo, refere-se aos três níveis principais chamando-lhes, respectivamente, o nível da consciência objetal, o nível da consciência subjetal e o nível do Princípio Absoluto. Wei Wu Wei, por sua vez, chama-lhes os níveis do objeto, do pseudo-objeto e do Sujeito Absoluto. O Budismo Yogacara tem o mano-vijnana, os manas e o alaya. Os mesmos níveis também foram enfocados por outros renomados exploradores, como William James, D. T. Suzuki, Stanislav Grof, Roland Fischer, Carl Jung, Gurdjieff, Shankara, Assagioli, John Lilly, Edward Carpenter, Blake - para nomear apenas um punhado deles. Tem também um interesse especial para nós o fato de vários psicólogos terem restringido (se bem que sem o querer) suas investigações num nível principal, e suas conclusões são de imensa importância para esclarecer e caracterizar cada nível individual. Mais notáveis, entre outras, são as escolas de psicanálise, de psicologia existencial, de terapia da Gestalt, do behaviorismo, da terapia racional, da psicologia social e da análise transacional.
Em outras palavras, começará a emergir do nosso estudo do Espectro da Consciência não só uma síntese de enfoques orientais e ocidentais da psicologia e da psicoterapia, mas também uma síntese e integração dos vários enfoques ocidentais principais da psicologia e da psicoterapia. Ora, neste ponto, sem chegar a nenhum dos pormenores e sem "revelar nenhum segredo" digamos apenas que as várias diferentes escolas de psicologia ocidental, como a freudiana, a existencial e a junguiana, estão se dirigindo também, no todo, a vários níveis diferentes do Espectro da Consciência, de modo que podem ser igualmente integradas numa abrangente "psicologia do espectro". Afirmo, com efeito, que a principal razão da existência, no Ocidente, de quatro ou cinco escolas principais, porém diferentes, de psicologia e psicoterapia é que cada uma delas focalizou sua atenção e numa faixa ou nível principal do Espectro. Não são, digamos assim, quatro escolas diferentes que formam quatro teorias diferentes a respeito de um nível de consciência, mas quatro escolas diferentes onde cada uma das quais se dirige predominantemente a um nível diferente do Espectro (por exemplo, os níveis da Sombra, do Ego, o Biossocial e o Existencial). Essas escolas distintas, por conseguinte, mantém uma relação complementar entre si, e não, como geralmente se supõe, uma relação antagônica ou contraditória. Fio-me de que isso se torne amplamente aparente à proporção que este estudo prosseguir.
Manifestações particulares do Espectro
Em todo o correr desse blog, sempre que nos referirmos à consciência como a um espectro, ou como composta de numerosas faixas ou níveis vibratórios, o significado permanecerá estritamente metafórico. Propriamente falando, a consciência não é um espectro - mas convém, para finalidades de comunicação e investigação, tratá-la como tal. Em outras palavras, estamos criando um modelo, no sentido científico do termo, muito parecido com o modelo de Michaelis-Menton de cinética enzimática, o modelo óctuplo do núcleo atômico, ou o modelo da excitação visual baseada na fotoisomerização da rodopsina. A fim de completar essa discussão introdutória do espectro da consciência, resta-nos fazer apenas breve identificação dos níveis básicos da consciência que serão tratados nesta síntese.
O Espectro da Consciência
Se, por um momento, considerarmos a consciência como um espectro, poderemos esperar que os diversos investigadores da consciência, sobretudo os que comumente se denominam "orientais" e "ocidentais", porque empregam instrumentos diferentes de linguagem, metodologia e lógica, "fizessem ligação" com diferentes faixas ou níveis vibratórios do espectro da consciência, exatamente como os primeiros cientistas da radiação faziam ligação com diferentes faixas do espectro magnético. Podemos esperar, outrossim, que os investigadores "orientais" e "ocidentais" da consciência não desconfiassem de que estavam todos fazendo ligação com várias faixas ou níveis do mesmíssimo espectro e, por conseguinte, a comunicação entre os investigadores fosse particularmente difícil e ocasionalmente hostil. Cada investigador estaria certo ao falar sobre o seu próprio nível e, assim, todos os demais investigadores - que tivessem feito ligação com outros níveis - pareceriam estar completamente errados. Não se esclareceria a controvérsia apenas obrigando os investigadores a concordarem entre si, senão compreendendo que todos falavam sobre um espectro isto de níveis distintos. Seria quase como se Madame Curie discutisse com William Herschel acerca da natureza da radiação, se nenhum deles compreendesse que a radiação é um espectro. Trabalhando apenas com raios gama, Curie proclamaria que a radiação afeta as chapas fotográficas, é poderosíssima e poe revelar-se mortal aos organismos, ao passo que William Herschel, trabalhando apenas com os raios infravermelhos, afirmaria que nada disso era verdade! E ambos, naturalmente, estariam certos, porque cada qual estaria trabalhando com uma faixa diferente do espectro e, quando o compreendesse, cessaria a discussão, e o fenômeno da radiação seria então entendido através de uma síntese de todas as informações obtidas em cada nível, precisamente a maneira com que os físicos de hoje encaram o assunto.
A nossa expectativa de que, sendo a consciência um espectro, a comunicação entre os investigadores orientais e ocidentais seria difícil porque cada qual estaria trabalhando num nível vibratório diferente, é exatamente o que acontece hoje. Em que pese a numerosas exceções importantes, a comunidade científica ocidental concorda, de um modo geral, em que a mente "oriental" é regressiva, primitiva ou, na melhor das hipóteses, simplesmente débil, ao passo que o filósofo oriental dirá provavelmente que o materialismo científico ocidental representa a forma mais grosseira de ilusão, ignorância e despojamento espiritual. Franz Alexander, por exemplo, representando uma variedade da investigação ocidental chamada psicanálise, assevera: "As manifestas similaridades entre as regressões esquizofrênicas e as práticas do Yoga e do Zen indicam que a tendência geral das culturas orientais é o recolhimento ao interior do eu, a fim de escapar a uma realidade física e social despoticamente difícil". Representando o enfoque oriental, como se pretendesse responder a isso, D. T. Suzuki declara: "O conhecimento científico do Eu não é um verdadeiro conhecimento ... O conhecimento do Eu só é possível ... quando os estudos científicos chegarem ao fim [e os cientistas] depõem suas engenhocas de experimentação e confessam não poder continuar as pesquisas".