Sob certas circunstâncias, qualidades, sentimentos e impulsos de 1ª pessoa podem se tornar reprimidos, renegados ou dissociados, e quando isso acontece, eles surgem como eventos de 2ª pessoa ou até mesmo de 3ª pessoa em minha própria percepção de 1ª pessoa.
Eis um exemplo – e para este exemplo, lembre-se de que a 1ª pessoa é definida como a pessoa que fala (por exemplo, “eu”); a 2ª pessoa é a pessoa com quem se fala (por exemplo, “tu”); e a 3ª pessoa é a pessoa de quem se fala (por exemplo, “ele”, “ela”, “eles/elas”). Há também o “caso”, por exemplo, caso reto, oblíquo e possessivo, de modo que o caso reto de 1ª pessoa é “eu”, o caso oblíquo de 1ª pessoa é “me” e o caso possessivo de 1ª pessoa é “meu” ou “minha”. Assim, eis o exemplo de como a repressão ou dissociação pode ocorrer:
Se fico com raiva do meu chefe, mas esse sentimento é uma ameaça à minha auto-percepção (“sou uma boa pessoa; pessoas boas não ficam com raiva”), então posso dissociar ou reprimir a raiva - por diversas razões, medo, auto-restrição, julgamentos do superego, traumas anteriores, etc. Porém, o simples fato de negá-la não a elimina, apenas faz com que os sentimentos de raiva pareçam alheios à minha própria percepção: posso sentir raiva, mas essa raiva não é minha. Os sentimentos de raiva são colocados do outro lado da fronteira do self (do outro lado da fronteira do eu), e nesse ponto eles parecem eventos alheios ou estranhos em minha própria percepção, em meu self.
Posso, por exemplo, projetar a raiva. Ela continua a aumentar, mas como não pode ser eu quem está com raiva, deve ser outra pessoa. Subitamente, o mundo parece cheio de gente com raiva..., e, em geral, com raiva de mim! Na verdade, acho que meu chefe quer me demitir e isso me deprime. Por meio da projeção de minha própria raiva, “furioso” se transforma em “triste”, e nunca vou superar essa depressão sem primeiro assumir a raiva. "Pensando bem, Ícaro está sempre com raiva de mim! Que pena, porque eu nunca fico furioso com ele, nem com ninguém" - é como amputar minha perna, apenas alegar que ela é sua. Não é minha, é sua! A raiva não é minha, é sua! (Porém, é uma grande disfunção, não é?).
Sempre que renego e projeto minhas qualidades, elas aparecem “por aí”, onde me assustam, me irritam, me deprimem e me obcecam. Reciprocamente, em nove entre dez casos, as coisas no mundo que mais me perturbam e irritam em relação aos outros são, na verdade, minhas qualidades sombrias (minha sombra), que agora são vistas como “externas”.
É por isso que essas coisas nos incomodam, e apenas aquelas que são reflexos de nossa sombra. Isso não quer dizer que os outros não tenham qualidades de desprezo. Meu vizinho é, sem dúvida, controlador! Mas por que isso me incomoda? Pelo jeito não irrita minha esposa, nem os outros vizinhos. Ah, mas se eles pudessem ver como esse cara é controlador, eles o odiariam também, como eu! Porém, é minha sombra que odeio, é contra ela que protesto. Eu sou mais controlador do que gosto de admitir, e ao não reconhecer essa qualidade que desprezo em mim, eu a nego e a projeto em meu vizinho – ou em qualquer outro que eu venha a encontrar. Sei que alguém é controlador, e porque simplesmente esse alguém não pode ser eu, tem de ser ele, ela, ou eles. Se a pessoa desprezada, de fato, possui o impulso ou a qualidade projetada, então isso servirá como um “gancho” para minha sombra projetada, um receptáculo convidativo para minhas qualidades similares e projetadas. Não estou dizendo que os outros não são assim; estou dizendo que se projetarmos nossa sombra sobre eles, teremos duas coisas para odiar.
É essa dose dupla de ódio que surge sob a forma de sintomas neuróticos, as sombras de um eu renegado. Se as qualidades negativas de outrem meramente me informam, é uma coisa; mas se elas me obcecam, me irritam, me inflam, me perturbam, então é provável que esteja, pura e simplesmente, vivendo um caso grave de projeção da sombra.
Esses elementos sombrios podem ser positivos ou negativos. Além de sermos um pouquinho piores, somos também um pouquinho melhores do que costumamos admitir e, ao projetarmos nossas virtudes, potenciais e capacidades positivas em outros, abraçamos nossa sombra a vida toda. Um rapaz diz “você é linda!”, e a garota retruca “são seus olhos” - por mais inconscientes que estejam, faz todo o sentido. Tanto projetar a sombra quanto abraçá-la são exemplos de doença psíquica, que, infelizmente, a grande maioria das pessoas sofre.
Portanto, eis o que acontece quando dissocio e alieno minha sombra, por exemplo, minha raiva. No momento em que afasto a raiva de mim, empurrando-a para o outro lado da fronteira do meu eu, ela se torna uma ocasião de 2ª pessoa em minha 1ª pessoa. Ou seja, enquanto ativamente afasto a raiva de mim, estou ciente dela, mas ela se transforma em um tipo de “tu” em meu próprio self. (Como disse, “2ª pessoa” significa a pessoa com quem eu falo, por isso a raiva de 2ª pessoa significa raiva com a qual eu ainda falo, mas ela não é mais eu, nem minha, nem para mim, não é mais 1ª pessoa). Posso perceber os sentimentos de raiva surgindo, mas eles surgem em minha percepção como se fossem um vizinho furioso batendo à minha porta. Sinto a raiva, mas, na verdade, digo a ela: “O que você quer?” – não “eu estou com raiva”, mas “alguém está com raiva, não eu”.
Se eu continuar a negá-la, ela poderá ficar completamente dissociada ou reprimida em uma ocasião de 3ª pessoa, que significa que não falo mais com ela: minha raiva finalmente se tornou “ela” ou um perfeito estranho em minha própria percepção, talvez surgindo como o sintoma de depressão, talvez deslocada em outras pessoas, ou projetada em meu chefe. Minha própria raiva-“eu” tornou-se um “ele” renegado, assombrando os corredores do meu íntimo, o fantasma da máquina de meu self retraído.
Em resumo, no decorrer de uma dissociação típica, quando meus sentimentos de raiva surgem, eles são convertidos de minha raiva de 1ª pessoa para outra de 2ª ou até mesmo de 3ª pessoa em minha percepção: aspectos de meu “eu” agora aparecem como um “ele” em meu próprio “eu”, e esses sentimentos e objetos do “ele” me deixam completamente confuso: essa depressão, ELA simplesmente me domina. Essa ansiedade, ELA me deixa maluco. Essas dores de cabeça, não sei de onde ELAS vêm, mas sinto tudo isso quando estou perto de meu chefe. Qualquer coisa, menos “estou furioso”, porque essa raiva não mais me pertence. Sou uma boa pessoa, nunca sentiria raiva – mas essas dores de cabeça estão acabando comigo.
O objetivo desse exemplo é ressaltar uma seqüência fenomenológica de eventos: certos “assuntos do eu” podem surgir na percepção (“eu estou com raiva!”), ser afastados ou negados, e as qualidades, impulsos ou sentimentos alienados colocados do outro lado da fronteira do eu: agora eu os sinto como outro (“sou uma pessoa boa, não estou com raiva, mas sei que alguém está, e como não pode ser eu, tem de ser ele!”). Depois que isso acontece, o sentimento ou a qualidade não deixam de existir; porém, a propriedade dele, sim. Esses sentimentos ou qualidades desapropriados podem, então, surgir como sintomas neuróticos confusos e dolorosos – como elementos “sombrios” em minha própria percepção.